Ser estrangeiro – O encontro com o Desconhecido

Trechos extraídos do Capítulo IV do meu trabalho de conclusão de curso para graduação no curso de Psicologia da PUC-SP, com o titulo: Filiação nacional e pertencimento: Incidências históricas e subjetivas à luz da Psicanálise.

“Quem é o estrangeiro? O que faz fora do país de origem? Por que está na minha terra? Até quando ficará aqui? – São algumas das perguntas que costumam ser feitas ao se ter notícias de um novo estrangeiro na região. Convido-os então a se colocarem não na posição dos inquisidores, mas na do “outro”, no lugar daquele que não é “dos nossos”.

Provavelmente, uma das primeiras coisas que notaria seria o lugar. Suas ruas, construções, o clima, a natureza, o volume de pessoas. Notando a configuração do lugar, o leitor provavelmente prestaria atenção nas pessoas. A maneira de andar, de vestir, de relacionarem-se uma com as outras. Neste momento, saltaria aos olhos – e ouvidos! – a língua estranha e a angústia de não entender o que é dito.

Inicialmente, um dos sentimentos que tomam o estrangeiro é a angústia por estar na nova terra. Ao perder as referências com as quais estava habituado e lhe eram então familiares, ele se vê invadido por sentimentos nostálgicos em relação à terra de origem e estranheza ao novo lugar, mesmo que este lugar represente a terra de desejo. Abandonar o próprio país não é uma decisão simples de ser tomada e deve-se ter um bom motivo para isso. Freud em Luto e Melancolia (1915) diz que “a perda da Pátria corresponde à perda de um ser querido, exigindo assim um trabalho de luto” (Freud apud Koltai, 2002, p.74)”

O sujeito que escolhe ser imigrante parte ao encontro do Desconhecido, é carente de referenciais simbólicos . Carignato (2002) afirma que, mesmo que o indivíduo já conheça a terra desejada, que tenha estudado sua cultura, sua língua, a geografia do lugar e que tenha se preparado para tal mudança, o Desconhecido estará sempre lá (…).

Podemos entender então que quando um sujeito migra, acontece inevitavelmente uma ruptura com a cultura anterior, ruptura esta que pode ser reconhecida, elaborada ou não. As separações e rupturas que ocorrem invariavelmente na vida do imigrante, fazem com que o sentimento narcísico de desamparo se reforce, se atualize (…).

Nessa situação, o indivíduo pode negar o rompimento com sua cultura, impedindo-se (consciente ou inconscientemente) de se adaptar à realidade da nova terra, permanecendo “ligado às antigas representações” (Carignato, 2002, p.65). Ou então, visto em profunda solidão, o migrante busca por “reproduzir as ligações anteriores, recriando na nova sociedade, ambientes que acreditam ser iguais aos que deixaram no passado” (Carignato, 2002, p.62). Outra possibilidade é o sujeito no novo país, se entregar completamente ao trabalho, que provê seu sustento financeiro e psíquico. Há também aqueles que, em busca de suprir o vazio psíquico, “constituem rapidamente novas ligações, novos laços sociais e amorosos, cortando subitamente aqueles que lhe parecem frustrantes, distantes ou dolorosos” (Carignato, 2002, p.62). Essas novas ligações são simplesmente substituições das outras que se estabeleceram no país de origem. Entretanto, ao negar o passado, o estrangeiro o faz ainda mais presente no seu íntimo. As novas relações podem se tornar “aprisionantes, sem possibilitar espaços psíquicos para a subjetividade” (Carignato, 2002, p.63). Afinal, no novo lugar não se conhece a língua e os símbolos, o migrante fica impossibilitado de circular, se fazendo então dependente de um outro.

Como pudemos ver estrangeiro buscará um eixo para se pautar, já que ele abandonou seus referenciais para trás. O trabalho de luto, do qual diz Freud (apud Koltai, 2002) da perda do país de origem, é necessário para que haja uma boa elaboração do desligamento da ligação materna e para que se crie possibilidades de novas identificações, novas formas simbólicas e significados para os significantes disponíveis no país em que se encontra.

A situação do estrangeiro nos leva a entender que a imigração também recria a cultura, daquele que recebe e daquele que vai de encontro com o novo. Novas identificações podem ser criadas e estabelecidas. A tolerância ao “outro” pode ser cada vez maior. Ser filho de um país não limita o indivíduo àquele lugar. Se ele partir, decidindo se tronar estrangeiro, ele poderá elaborar este desligamento com o materno e criar novas formas simbólicas e significados para os significantes disponíveis no novo país. Ele representa o seu país, pois carrega consigo a sua língua mãe. O estrangeiro pode ser visto como embaixador, aquele que promove o intercâmbio de culturas, que descristaliza papéis e conceitos preconceituosos e que renova o sentimento de pertença das pessoas do novo país e de si próprio.”

Bibliografia

BERTONCINI, Cintia. Filiação nacional e pertencimento: Incidências históricas e subjetivas à luz da Psicanálise. 2010. 64f. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso para Graduação em Psicologia) – Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, SP.

CARIGNATO, Taeco Toma. Por que eles emigram?. In: CARIGNATO, T.T. et al. Psicanálise, cultura e migração. São Paulo: YM Editora & Gráfica, 2002, p.55-66.

KOLTAI, Caterina. Curso e percurso do estrangeiro. In: CARIGNATO, T.T. et al. Psicanálise, cultura e migração. São Paulo: YM Editora & Gráfica, 2002, p.67-78.

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